Um dos temas dominantes de nossa época é o fim das fronteiras – científicas, geográficas, econômicas, de comunicação. Foram ultrapassados até mesmo os limites da ficção científica nas pesquisas sobre genoma e sobre a estrutura do universo e da matéria. No campo das comunicações, as novidades são diárias. Para muitos, vivemos sob o signo da globalização. Para outros, as conquistas da humanidade não são comuns a todas as pessoas. Paradoxalmente, continuam persistindo, e até se aprofundando, as lutas por identidades (culturais, de gênero, de etnia etc.).
Tomando como referência a coletânea abaixo, escreva uma dissertação sobre o tema:
Um paradoxo da modernidade: eliminação de fronteiras, criação de fronteiras.
1. Bárbaro, adj. e s. Do gr. bárbaros, “estrangeiro, não grego [...]; relativo a estrangeiros, a bárbaros; semelhante à linguagem, aos costumes dos bárbaros; bárbaro, incorrecto (em referência a erros contra o bom uso do idioma grego); grosseiro, não civilizado, cruel”; pelo lat. barbaru – “bárbaro, estrangeiro (= latino para os Gregos); bárbaro, estrangeiro (todos os povos, à excepção dos Gregos e Romanos); bárbaro, inculto, selvagem; bárbaro, incorrecto (falando da linguagem)”. Pela comparação com o sânscrito barbarah, “gago”, esloveno brbrati, brbljatati, sérvio brboljiti, “patinhar, chafurdar”, lituano birbti, “zumbir”, barbozius, “zumbidor”, verifica-se estarmos na presença de onomatopéias, das quais podemos aproximar o latim balbus (cf. Boisacq, 144-145), donde em português balbo e bobo (q.v.s.v. balbuciar); (José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 2ª ed., Lisboa, Confluência, 1967.)
2. Assim, acreditei por muito tempo que esta aldeia, onde não nasci, fosse o mundo inteiro. Agora que conheci realmente o mundo e sei que ele é feito de muitas pequenas aldeias, não sei se estava tão enganado assim quando era menino. Anda-se por mar e por terra da mesma forma que os rapazes do meu tempo iam às festas nas aldeias vizinhas, e dançavam, bebiam, brigavam e voltavam para casa arrebentados. […] é necessário ter-se uma aldeia, nem que seja apenas pelo prazer de abandoná-la. Uma aldeia significa não estar sozinho, saber que nas pessoas, nas plantas, na terra há alguma coisa de nós, que, mesmo quando se não está presente, continua à nossa espera. Mas é difícil ficar sossegado. […] Essas coisas só são compreendidas com o tempo, com a experiência. Será possível que, aos quarenta anos e com o tanto de mundo que conheci, não saiba ainda o que é minha aldeia? (Cesare Pavese, A lua e as fogueiras, São Paulo, Círculo do Livro, p. 10-11.)
3. O movimento do qual eu participo não está vinculado ideologicamente a nada. Nossas ações não são especialmente dirigidas contra os Estados Unidos, mas contra as multinacionais. Entre elas, as que produzem organismos geneticamente modificados, os transgênicos. São empresas americanas, mas também européias. Para nós, elas são todas iguais. A forma como a agricultura geneticamente modificada tem sido imposta aos países europeus não nos deixa outra alternativa senão reagir. […] O McDonald’s é o símbolo da uniformização da comida e da cultura americana no mundo. (José Bové, líder camponês francês, em entrevista à ISTOÉ, 30/8/2000, p. 10-11.)
4. — Por que me matais?
—
Como! Não habitais do outro lado da água? Meu amigo, se
morásseis deste lado, eu seria um assassino, seria injusto matar-vos
desta maneira; mas, desde que residis do outro lado, sou um bravo, e
isso é justo. (Pascal, Pensamentos, §293, São Paulo,
Abril Cultural, Col. Os Pensadores.)
5. Cem anos passados, aquele destino trágico, que confrontou algozes e vítimas no maior “crime da nacionalidade” perpetrado, parece ter-se alastrado, como maldição, para todo o território do país. O incêndio de Canudos espalhou-se por todo o campo e cidades. O vento levou as cinzas para muito longe, fora de qualquer controle. O grande desencontro de tempos dá-se hoje, simultaneamente, em muitos espaços. Essa a grande herança dos modernos. As muitas figuras em que se multiplicam e dispersam os condenados de Canudos, em plena era de globalização, continuam a vagar sem nomes, sem terra, sem história: são quase 60 milhões de pobres, párias e miseráveis esquecidos do Brasil (que é este gigante que dorme, enquanto seus filhos – os mais novos e os mais antigos – agonizam nas ruas e estradas?). (F. Foot Hardman, “Tróia de Taipa, Canudos e os Irracionais”. In Morte e Progresso: a Cultura Brasileira como apagamento de rastros, São Paulo, Unesp, 1998, p. 132.)
6. O apartheid brasileiro pode ir a juízo, imaginem. A associação nacional dos shoppings deve ir à justiça a fim de impedir pobres de perturbar seu comércio. Na origem da demanda judicial estaria o passeio de 130 pobres pelo shopping Rio Sul, organizado por uma tal Frente de Luta Popular. Talvez seja ilegal a perturbação do comércio. Na tradição brasileira das famílias proprietárias, pobres nas proximidades sempre perturbam. Como dizem os economistas, há um case aí. O apartheid no tribunal! (Vinícius Torres Freire, “Crioulos no limite”, Folha de S.Paulo, 27/8/2000, p. A 2.)
7. Se os senhores fossem todos alienistas e eu lhes apresentasse um
caso, provavelmente o diagnóstico que os senhores me dariam do
paciente seria a loucura. Eu não concordaria, pois enquanto esse
homem puder explicar-se e eu sentir que podemos manter um contato, afirmarei
que ele não está louco. Estar louco é uma concepção
extremamente relativa. Em nossa sociedade, por exemplo, quando um negro
se comporta de determinada maneira, é comum dizer-se: “Ora,
ele não passa de um negro”, mas se um branco agir da mesma
forma, é bem possível dizerem que ele é louco, pois
um branco não pode agir daquela forma. Pode-se dizer que um homem é diferente,
comporta-se de maneira fora do comum, tem idéias engraçadas,
e se por acaso ele vivesse numa cidadezinha da França ou da Suíça,
diriam: “É um fulano original, um dos habitantes mais originais
desse lugar”. Mas se trouxermos o tal homem para a Rua Harley,
ele será considerado doido varrido. Se determinado indivíduo é pintor,
todo mundo tende a considerá-lo um homem cheio de originalidades,
mas coloque-se o mesmo homem como caixa de um banco e as coisas começarão
a acontecer…
(C. G. Jung, “As conferências de Tavistock”. ln Fundamentos
de psicologia analítica, Petrópolis, Vozes, 1972, p. 56.)
8. Pergunta: – O e-mail aproxima as pessoas?
Resposta: – Isso é ilusão. Marcel Proust escreveu
21 volumes de cartas. Você as lê e percebe que ele as escrevia
para manter as pessoas à distância. Ele não queria
se aproximar. Com o e-mail acontece a mesma coisa. Acho até que
ele potencializa esse aspecto. Essa história de comunidade global,
com todo mundo falando com todo mundo, é lixo ideológico.
Em vez de o sujeito estar num bar, conversando com seus amigos, ele passa
horas no computador, mandando mensagens eletrônicas para pessoas
que, em muitos casos, nem conhece. Essa é uma forma de solidão.
Não houve aproximação. (Walnice Nogueira Galvão,
entrevista a Elio Gaspari, Folha de S.Paulo, 27/8/2000,
p. A 15.)