Suponha que você seja ou o juiz que decidiu pela volta do menino Elián a Cuba, ou um parente de Elián que lutou por sua permanência nos Estados Unidos, ou o pai de Elián, que lutou por sua volta a casa. Colocando-se no lugar de uma dessas pessoas, e considerando os pontos de vista expressos no texto a seguir, escreva uma carta a Elián, mas para ser lida por ele quinze anos depois desses acontecimentos, tentando convencê-lo de que a posição que você assumiu foi a melhor possível.
Quando a imaginação do mundo se depara com uma tragédia
humana tão dolorosa quanto a de Elián, o menino refugiado
de 6 anos que sobreviveu a um naufrágio apenas para afundar no
atoleiro político da Miami cubano-americana, ela instintivamente
procura penetrar nos corações e mentes de cada um dos personagens
do drama. Qualquer pai ou mãe é capaz de imaginar o que
o pai de Elián, Juan Miguel González, vem sofrendo, na
cidade natal de Elián, Cárdenas – a dor de perder
seu filho primogênito; logo depois, a alegria de saber de sua sobrevivência
milagrosa, com Elián boiando até perto da Flórida
numa câmara de borracha.
A seguir, o abalo de ouvir da boca de um bando de parentes com os quais
não tem relação alguma e de pessoas que lhe são
totalmente estranhas a notícia de que estavam decididos a colocar-se
entre ele e seu filho. Talvez também sejamos capazes de compreender
um pouco do que se passa na cabeça de Elián, virada do
avesso. Trata-se, afinal de contas, de um garoto que viu sua mãe
mergulhar no oceano escuro e morrer. Durante um tempo muito longo depois
disso, seu pai não esteve a seu lado.
Assim, se Elián agora se agarra às mãos daqueles
que têm estado a seu lado em Miami, se os segura forte, como se
segurou à câmara de borracha, para salvar sua vida, quem
pode culpá-lo por isso? Se ergueu uma espécie de felicidade
provisória à sua volta, em seu novo quintal na Flórida,
devemos compreender que é um mecanismo de sobrevivência
psicológica e não um substituto permanente de seu amor
ao pai. […]
Elián González virou uma bola de futebol política,
e – acredite na palavra de alguém que sabe o que é isso – a
primeira consequência de virar uma bola de futebol é que
você deixa de ser visto como ser humano que vive e sente. Uma bola é um
objeto inanimado, feita para ser chutada de um lado a outro. Assim, você se
transforma naquilo que Elián se tornou, na boca da maioria das
pessoas que discutem o que fazer dele: útil, mas, em essência,
uma coisa, apenas.
Você se transforma em prova da mania de litígio de que sofrem
os Estados Unidos, ou do orgulho e poder político de uma comunidade
imigrante poderosa em nível local. Você vira palco de uma
batalha entre a vontade da turba e o estado de direito, entre o anticomunismo
fanático e o antiimperialismo terceiro-mundista.
Você é descrito e redescrito, transformado em slogan e falsificado
até quase deixar de existir, para os combatentes que se enfrentam
aos gritos. Transforma-se numa espécie de mito, um recipiente
vazio no qual o mundo pode derramar seus preconceitos, seu ódio,
seu veneno.
Tudo o que foi dito até agora é mais ou menos compreensível.
O difícil é imaginar o que se passa na cabeça dos
parentes de Elián em Miami. A família consanguínea
desse pobre menino optou por colocar suas considerações
ideológicas de linha dura à frente da necessidade óbvia
e urgente que Elián tem de seu pai. Para a maioria de nós,
que estamos de fora, a escolha parece ser desnaturada, repreensível.[...]
Quando os parentes de Miami dão a entender que Elián sofrerá “lavagem
cerebral” se voltar para casa, isso apenas nos faz pensar que eles
são ainda mais bitolados do que os ideólogos que condenam.
(Salman Rushdie, “Elián González se transformou numa
bola de futebol política”, Folha de S.Paulo, 7/4/2000, p.
A 3, com pequenas adaptações.)
ATENÇÃO: AO ASSINAR A CARTA, USE INICIAIS APENAS, DE FORMA A NÃO SE IDENTIFICAR.